Um nível pode ser, como diz a Wikipédia, um “instrumento destinado a gerar um plano horizontal de referência, para calcular os desníveis entre pontos”, pode ser a linha que separa o bem do mal, mas será sempre uma referência. Queremos baixos níveis de pobreza e de criminalidade, mas queremos políticos e dirigentes de alto nível. Ontem faltou nível no Estádio da Luz.
Com o orgulho ferido pela derrota na Supertaça e pela goleada sofrida no Dragão e com meses de indisposição acumulada por nunca se terem conseguido aproximar da liderança do campeonato, ontem o objectivo dos encarnados era assumido: adiar a celebração do FC Porto. Não contava a vantagem conseguida na meia-final da Taça de Portugal, a garantia de mais uma final na Taça da Liga ou, sequer, a presença nos quartos-de-final da Liga Europa. Ontem jogava-se pelo orgulho e o Benfica falhou.
Durante os 90’ minutos enfrentaram-se as duas melhores equipas nacionais e a vitória dos novos campeões nacionais foi clara. Tão clara como a justiça de um campeonato que os portistas vencem a cinco jornadas do fim, sem derrotas e a celebrar em casa do único rival. Mas não foi em campo que o Benfica perdeu nível. É certo que Roberto voltou a servir de avançado, que Jesus voltou a descobrir um jogador que não pode ser defesa lateral (Airton) e que Cardozo voltou a ser perdulário, mas a isso, acho, chama-se futebol. A verdadeira estocada no orgulho benfiquista foi dada após o final do jogo.
Ontem, foi a falta de nível dos responsáveis benfiquistas que mais feriu o orgulho dos seus adeptos. Apagar as luzes e ligar o sistema de rega enquanto os novos campeões nacionais celebravam é de baixo nível, revela falta de desportivismo e, no limite, mau perder. Com razão, alguns dirão que a tradição de receber mal os visitantes foi iniciada nas Antas e aperfeiçoada no Dragão. Afinal, foi em casa do FC Porto que se infestaram balneários com aguardente, é no Dragão que o Benfica é anunciado como “visitante” e é na Invicta que dirigentes e adeptos do clube são recebidos em estado de sítio. Mas também é sabido que esse não é o segredo do sucesso azul-e-branco.
Na Luz, podiam tentar copiar a equipa de olheiros que descobriu Hulk perdido no Japão. Podiam copiar o método de negociação que levou Falcão a aterrar no Sá Carneiro e não na Portela. Podiam até inspirar-se na alma com que os azuis-e-brancos entraram em campo. Mas ontem os dirigentes encarnados decidiram copiar o que de pior o FC Porto tem. Voltaram a fazer descer o nível de uma guerra que só devia ser travada em campo e, garantidamente, não ganharam nada com isso. Em campo, a equipa foi simplesmente derrotada. Fora de campo, a exibição foi bem pior.
Fica o Fair Play de Van Morrison
Há notícias do capitão do Benfica ter aberto uma garrafa de champanhe em pleno balneário da Luz. Luisão, é sabido, há anos que mantinha uma relação difícil com o mais levezinho dos avançados nacionais. Relação difícil porque Liedson sempre foi tão levezinho como mortífero e os rins do gigante brasileiro nunca se conseguiram adaptar ao ritmo do 31. Agora chegou a altura de celebrar: Liedson não voltará a jogar no Estádio da Luz. Bem pior é que tão pouco voltará a jogar no Estádio de Alvalade.
Dirão que está velho, tem 33 anos, que já não marca ao ritmo que manteve durante os sete anos e meio de verde-e-branco; ou que já não tem a motivação de outros tempos. Outros, dirão que ainda assim era o melhor avançado do plantel sportinguista, que a quebra de ritmo se deve à qualidade de um plantel em que Djaló é titular e que a falta de motivação é culpa da ausência de objectivos para a restante época. Liedson nunca foi uma figura consensual. Uns odiavam-no por simular faltas, ou por ser frequentemente apanhado em fora-de-jogo, mas também não faltava quem o idolatrasse. Pela quantidade de golos que marcava, pelo talento com que desviava os adversários do caminho, pela especial crueldade com que tratava a defesa benfiquista e, porque não, pela preciosa ajuda que deu à selecção nacional no aflitivo apuramento para o Mundial de 2010. Em todo o caso, não foram as prestações em campo que possibilitaram um negócio que há uns meses seria recebido com desdenhosas gargalhadas em Alvalade.
É sabido que no Sporting pior que a pontuação no campeonato nacional, só mesmo o saldo bancário e a dolorosa contabilidade com BES e BCP. É também sabido que todos reclamam por uma reestruturação do clube e que a saída das peças mais dispendiosas é um dos caminhos possíveis. Mas será que é o certo? No emaranhado de contas em que os clubes portugueses mergulharam com a transição para o admirável mundo das SAD a vítima é sempre a mesma: o futebol. Nas SAD a equipa de futebol é só mais um activo e os salários dos jogadores, em vez de serem encarados como um mal necessário, são um número a rever. Um erro.
Sem bom futebol ao Domingo não há clube que resista e sem bons jogadores ele, o bom futebol, não aparece. Liedson era um grande jogador, daqueles a quem o Chico Buarque elogiava o “sentimento da diagonal” e a capacidade de causar o “delírio nas gerais”. Deixá-lo sair foi um erro. Pelo menos para nós, os que gostamos do tal activo que as SAD não percebem: o bom futebol.
Foi no final do século XIX que Óscar Wilde celebrizou a frase. “A vida imita a arte”. O significado, a sua aplicabilidade ou a justiça do comentário podem ser discutidas, mas basta folhear os jornais para ver que não faltam exemplos de candidatos a artistas.
“Diria que eles se devem abster de qualquer actividade sexual”. A frase podia ter saído da boca de Ricardo Araújo Pereira, o genial ministro do Governo Sombra da TSF, podia ser um verso dos Ena Pá 2000 ou estar escrita numa das paredes que os grafiters enfeitam, mas não. O autor da hilariante tirada foi Joseph Blatter, a propósito do que espera os homossexuais que arrisquem ir assistir ao Mundial de 2022. Mas o comediante presidente da FIFA também deixou uma mensagem tranquilizadora.
O departamento criativo da FIFA - há quem lhe chame Comité Executivo - escolheu o Qatar como anfitrião para o Mundial que se seguirá ao russo. Por lá, além de apertadas regras de indumentária, são proibidas as manifestações públicas de afecto, o consumo de bebidas alcoólicas em público e qualquer comportamento homossexual. Mas os organizadores já prometeram o favor de serem mais tolerantes durante a prova e Blatter está “certo que em 2022 não teremos problemas”.
Com prejuízo para a cor do torneio, as adeptas podem ser obrigadas a assistir aos jogos com camisolas de gola alta e as hordas de adeptos podem matar a sede com água. Mas será que ninguém na FIFA se incomoda com o facto de este poder vir a ser o primeiro Mundial em que a orientação sexual dos adeptos é assunto? O sorridente Blatter acha que não.
Em 1895, Óscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados por “ter praticado actos imorais com rapazes”. Em causa, estava a denúncia feita pelo pai de Alfred Douglas, de 21 anos, com quem Wilde ainda viveria, depois de cumprida a pena, em Paris e Nápoles. Dessas vidas ficaram as cartas que Wilde escreveu e que em 1962 acabaram editadas em livro. Dessa vez, foi a arte que imitou a vida. Na FIFA, normalmente é a vida que imita a arte. Neste caso, uma comédia, ao contrário das que Wilde escreveu no início da carreira (A Importância de ser Ernesto, entre outras), de muito mau gosto.
Estivesse Freddie Mercury vivo, será que o deixavam cantar a música mais ouvida nos estádios de futebol?
Não é fácil compreender um génio. Acreditando no filme que Clint Eastwood lhe dedicou (Bird, 1988), Charlie Parker foi assobiado na primeira vez que subiu a um palco e são históricos os fracassos nas suas primeiras jam sessions. Uns defendem que as ideias musicais eram demasiado rápidas para os seus dedos, outros culpam o som do saxofone e também há quem acredite que, aos 15 anos, Charlie Parker simplesmente não sabia tocar. Unânime, entre os peritos do jazz, é o espanto: como é possível que o público dos bares de Kansas não tivesse identificado o talento daquele que hoje é visto como um dos saxofonistas mais influentes da história do Jazz?
A celebrar vinte anos de carreira como treinador, Jorge Jesus continua a tentar ser compreendido e, pela primeira vez desde que chegou ao Benfica, o seu talento começou a ser colocado em causa. E tudo porque ninguém percebeu a genialidade da táctica utilizada no Estádio do Dragão. Como é possível que comentadores e treinadores de bancada não tenham percebido que David Luiz era o homem certo para travar Hulk como lateral esquerdo, que Fábio Coentrão jogaria melhor a extremo ou que o Benfica tenha entrado em campo com o mais inexperiente dos seus avançados sozinho na frente do ataque. Como é possível que os críticos tenham insistido que, a sete pontos do líder, ao Benfica não restava outra opção que não jogar para ganhar ao FC Porto? Não é fácil perceber um génio.
Charlie Parker abandonou a escola para se dedicar à música. Dizem os biógrafos que, para os dedos acompanharem o Bebop que ouvia na cabeça, Parker treinava 15 horas todos os dias. Garantido é que aos 17 anos já integrava a orquestra de Jay McShann e que dois anos depois se mudou para Nova Iorque em perseguição da Liga dos Campeões do Jazz. Pela proximidade, lavou pratos no bar em que tocava Art Tatum e aos vinte anos os seus esforços começaram a ser recompensados: gravou pela primeira vez com Dizzy Gillespie e o seu som deixou de ser incompreensível. Os elogios começavam a aparecer.
Com os seus ritmos acelerados, complexas melodias e longos solos, Parker e Gillespie ajudaram a inventar o Bebop. Parker tinha razão quando corajosamente se recusou a abrandar o ritmo a que soltava as notas, a repetir até à exaustão o refrão dos standards ou em encurtar os solos. The Bird - alcunha pela qual ficou conhecido e não qualquer piada à ave que os Super Dragões simpaticamente enviaram a Roberto – era um génio e não fosse pelo aparecimento, uns anos depois, de John Coltrane ainda hoje seria visto como o mais influente dos saxofonistas de Jazz. No entanto, em partituras ou em desenhos de campos de futebol, insistir em esquemas tácticos que não funcionam é sinal de teimosia e não de génio. Para conseguir o virtuosismo que o Bebop exigia, Parker treinou durante anos e no final conseguiu provar que tinha razão. Por enquanto, Jesus ainda só conseguiu desperdiçar a hipótese de o Benfica se sagrar bicampeão nacional. A sua genialidade continua por provar. Será que precisa de mais uns ensaios?
Os chavões são todos verdade. É verdade que “só um surfista percebe o sentimento” e que o bom “é destruir as ondas e não as praias”. Também é certo que depois de se conseguir um “tubo” dificilmente se deixa de voltar à água e que todos, sem excepção, procuram a “onda perfeita”. Pode ter vinte centímetros e rebentar na areia da Costa da Caparica, pode ter metro e meio e terminar na praia dos Supertubos ou medir cinco e nascer no Canhão da Nazaré, ali bem em frente à Praia do Norte. A onda perfeita só depende de quem aproveita a boleia e no caso de Andy Irons a onda perfeita era uma esquerda em Pipeline. Grande, acessível apenas à elite do surf e por cima do mais fatal de todos os recifes. Nos últimos anos, na mais célebre onda do Mundo morreram onze surfistas, centenas saíram feridos da água e outros tantos devem o privilégio de respirar a uma equipa de nadadores salvadores tão corajosa como bem equipada. Mas os problemas de Andy Irons não estavam na água. “Tenho muitos demónios interiores. Se não fosse o surf autodestruía-me”, disse num dos muitos filmes em que assumiu o papel de protagonista.
“Quando era novo surfava porque o Kelly Slater o fazia. Porque era moda, porque me garantia miúdas, porque era uma festa, dava carros fixes. Tive isso tudo e com o tempo tudo passou a ser banal”, dizia ainda o tricampeão do Mundo (2002, 2003, 2004) que agora foi encontrado morto num quarto em Dallas. Ao lado da cama, comprimidos e entre eles, supostamente, vários de metadona, a substância habitualmente usada para libertar toxicodependentes dos seus anteriores vícios. Afinal, nem o surf, a mulher, o primeiro filho que nascerá dentro de um mês ou os milhares de fãs foram capazes de o defender dos “demónios”.
Aos 32 anos, Andy Irons falhou a onda que nem os seus mais ferozes adversários queriam que perdesse. Em Porto Rico, a ASP suspendeu a prova por 48 horas e centenas de surfistas entraram no mar em sua homenagem. Mick Fanning, Martin Potter, Taj Burrow e mesmo Kelly Slater, com quem Irons durante anos manteve uma rivalidade quase física, juntaram-se aos anónimos, pegaram nas pranchas, mas recusaram-se a apanhar qualquer onda. Todos acusaram a perda. Uns terão saudades do adversário, outros do amigo e muitos mais sentirão a falta do ídolo.
“Passava semanas sem surfar, algo que nunca me tinha acontecido. Agora estou bem, focado e com vontade de ganhar”, prometera no início da época que deveria assinalar, depois de um ano sabático, o regresso à competição. Pela primeira vez em três anos, no último mês de Agosto, no Taiti, venceu uma etapa, mas desta vez não conseguiu cumprir a promessa. Capaz de domar ondas letais, Irons despediu-se com o mais saboroso de todos os títulos: o único capaz de aterrorizar – venceu seis dos nove heats disputados com Kelly Slater - o melhor surfista de todos os tempos. Infelizmente, foi incapaz de enxotar os “demónios” que continuam a somar vítimas.
John McLaughin e Paco de Lucia tinham perdido um parceiro. Larry Coryell, guitarrista norte-americano que na década de sessenta se notabilizara a misturar jazz com rock, lutava contra as drogas e a editora, a Columbia, exigia um nome com outro peso para editar em cd o projecto que nascera da ideia de McLaughin: três mestres, outras tantas violas acústicas e um som a misturar a fúria do flamenco com o swing do jazz. Em 1980, só a chegada de um terceiro elemento permitiu a digressão norte-americana e a posterior edição daquele que hoje é considerado um dos discos mais influentes da história do jazz fusão.
Com uma ajuda da electricidade, McLaughin já tocara com Miles Davis ou Jaco Pastorious e Paco de Lucia desde os 11 anos que se apresentava em público a tocar flamenco. Experiência não lhes faltava, mas ambos teriam de adaptar-se - o inglês, às violas acústicas, o espanhol às regras do jazz. Mas a companhia não podia ser melhor. Para a vaga de Coryell, chegou Al Di Meola, acabado de passar dois anos na célebre banda de Charlie Haden, Return to Forever. O equivalente a um mestrado na mistura de géneros musicais com a escola do Jazz.
Falcão jogou sozinho no ano passado. Hulk perdia-se em dribles inconsequentes ou em túneis de má memória, Cristian Rodriguez nunca mostrou ritmo para acompanhar a velocidade dos companheiros e o desfecho, como indicaram as celebrações na Luz, não foi o mais desejado. Este ano, ao swing de Falcão juntou-se a fúria de Hulk e um reforço que outros desaproveitaram: Varela. Os resultados estão à vista: o FC Porto lidera o campeonato nacional, o grupo da Liga Europa e no total dos 15 jogos oficiais somou 14 vitórias. A última dissipou todas as dúvidas. Falcão e Hulk exibiram classe frente ao Leiria com jogadas desconcertantes, golos perfeitos e até um ou outro drible com requintes de malvadez. Desta vez, Varela acompanhou-os e os cinco golos com que castigaram o Leiria servem, pelo menos, de aviso aos rivais na segunda circular. Este ano, a música será outra.
McLaughin, de Lucia e Meola sentaram-se no Warfield Theater, a 5 de Dezembro de 1980, para gravar Friday Night Live in San Francisco. E o resultado foi histórico. Falcão, Hulk e Varela parecem querer fazer o mesmo no futebol português. Trinta anos depois da gravação, McLaughin, de Lucia e Meola continuam sem rivais à altura e com o lugar seguro na história do Jazz. Em Portugal, Hulk, Falcão e Varela podem ter de esperar pelo próximo dia 15 de Maio, o dia da última jornada do campeonato, para celebrarem, mas uma coisa já garantiram: não há outro trio desta classe no futebol português.
Não perceber uma piada pode ser altamente embaraçoso. Ver os amigos a rir e não os conseguir acompanhar não é agradável e mais irritante ainda é ser alvo de troça e não nos conseguirmos defender. “Não deixes que a realidade te estrague uma boa história” há muito que faz parte das piadas mais usadas nas redacções do país. E Jorge Jesus parece tê-la decorado. Pior, só mesmo o facto de não perceber que é a ironia o ingrediente que faz a piada. Na véspera do jogo frente ao Lyon, Jesus voltou às frases sonantes, mas a realidade estragou-lhe o discurso que tinha tudo para ser memorável. “Poucas equipas no Mundo jogam como nós” ilude benfiquistas e ouvir “Vencer o Lyon será normal” até traz recordações do tempo em que o Benfica era gigante na Europa. Em dez anos, o Lyon venceu sete títulos franceses, tornou-se presença habitual pelo menos nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões e no ano passado até eliminou o Real Madrid da competição, mas para Jesus seria “normal” vencer em França. Ontem, foi mesmo a realidade a destruir um belo discurso do treinador benfiquista.
“Preciso de um conserto porque me estou a ir abaixo” - será assim a tradução literal do célebre verso de ‘Hapiness is a Warm Gun”, uma das letras de John Lennon no The Beatles, o célebre Álbum Branco. Uns dizem que Lennon falava do seu recente vício de heroína, outros defendem que a música se referia à quente paixão que o Beatle sentia por Yoko Ono e que a “arma quente”, afinal, nem era uma seringa. Real é que, por alturas do Álbum Branco, os Beatles mal se falavam e a coesão da equipa, não no balneário mas nos estúdios de Abbey Road, estava longe da que os levara ao topo do Mundo. No entanto, não se ganha a alcunha de ‘Fab four’ por acaso e, mesmo a gravar em estúdios separados e a horas diferentes, os rapazes de Liverpool apresentaram um dos melhores discos da história. Um trabalho em que Eric Clapton ajudou (While my guitar gently weeps), em que McCartney tocou bateria (Back in USSR), mas também em que gravaram a música (Helter Skelter) que inspiraria os massacres de Charles Manson.
Real é que o Benfica do ano passado, o campeão das goleadas, se foi abaixo. Uma política de contratações sem nexo e a ausência de alternativas no plantel até podem justificar muita coisa, mas nesta altura já ninguém nega que o Benfica, tal como Lennon nas gravações do Álbum Branco, precisa de conserto. Para já, terão duas oportunidades. Em Janeiro o mercado de transferências reabre e os terceiros classificados dos grupos da Liga dos Campeões passam directamente para a Liga Europa. Com reforços e adversários europeus do seu nível, a equipa de Jesus talvez ainda possa recuperar. Afinal, os Beatles editaram três discos depois do Álbum Branco.
Saber ocupar os tempos livres é uma arte. É fácil passar um dia no sofá, a assistir a disputados jogos do Brasileirão - ninguém devia perder um Ceará-Avaí - em maratonas de Playstation com amigos - está a chegar o PES 2011 - a ver filmes de qualidade duvidosa - ainda no fim-de-semana passado descobri que a Lauryn Hill entrou em Do Cabaret para o Convento II – ou, mais simples ainda, a recuperar as horas de sono que o horário de trabalho insiste em roubar. Verdadeiramente difícil é conseguir ocupar os tempos livres com actividades úteis. Nessa altura, revelam-se os verdadeiros artistas. Há quem aproveite as horas desocupadas para escrever livros, compor músicas ou para tomar decisões verdadeiramente úteis para o dia-a-dia.
Em 1967, John Lennon aproveitou um dos intervalos da gravação do vídeo de Strawberry Fields Forever para dar um passeio por Kent. Por um motivo ou por outro, o mais popular dos Beatles acabou por entrar num antiquário onde decidiu comprar um poster, do final do século XIX, a anunciar um circo em “benefício do senhor Kite”. Às promessas de trampolins, malabarismos com fogo e com cavalos, Lennon e McCartney entretiveram-se a juntar sons de harmónicas, órgãos de som circenses e efeitos vários. Desse passeio nasceu “For the Benefit of Mr Kite”, uma das músicas de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Está longe de ser a melhor música do disco, mas a verdade é que, da descomprometida caminhada, Lennon conseguiu inventar a letra para a mais divertida das 13 músicas do álbum que consagrou os Beatles como compositores.
Não é difícil imaginar que a norma interna que impede os funcionários do Sporting de vestir calças de ganga foi inventada num momento de descontracção. Entre um e outro café, um ou outro cigarro, entre dois comentários sobre os resultados do fim-de-semana no campeonato espanhol ou sobre o calor de Verão que insiste em prolongar-se pelo Outono, alguém se lembrou que as calças que os operários norte-americanos celebrizaram no século XVIII não eram dignas do look “profissional” exigido aos funcionários do Sporting. A validade da ideia pode ser discutida. Por um lado, temos Steve Jobs que, mesmo sem nunca ter sido visto senão de jeans, ultrapassou o mais engomadinho Bill Gates. Por outro, todos sabemos que foram os fatos de corte italiano a valer a alcunha de “Ministro” a Costinha, actual director desportivo do clube. Igualmente discutível é o timing. Será que a dez pontos do primeiro, com o pior ataque da história e com manifestações de adeptos prometidas para a Assembleia Geral de logo à noite, os dirigentes do clube não encontravam outra forma de ocupar os tempos livres? É que medidas divertidas só têm graça quando o resto do trabalho é de qualidade indiscutível.
Ninguém espera entrar em Camp Nou e ver um mau jogo de futebol. Ninguém espera ver José Mourinho ser enganado por um adversário ou assistir à ultrapassagem de um Lotus a um Ferrari. Da mesma forma, ninguém, independentemente da crise, espera sentar-se numa das coloridas cadeiras de Alvalade para ver o Sporting empatar com o Nacional. Não merece o coração dos adeptos, não merecem os funcionários do clube e não merecem os fãs da ‘redondinha’ que gostam de ver o título nacional a ser disputado pelos maiores clubes nacionais. Depois de uma época dolorosa, os rapazes em Alvalade estão a conseguir uma proeza que poucos queriam acreditar ser possível: este já é o pior arranque desde que a vitória vale três pontos. De orgulho ferido, com uma equipa sem carisma e uma direcção menos popular que os aumentos de impostos, o Sporting está moribundo.
Em 1998 os Red Hot Chilli Peppers eram uma banda morta. O sucesso no final da década de oitenta, o auge com Blood Sugar Sex Magik e as digressões em estádios cheios tinham ficado para trás. A heroína consumira a energia do vocalista, Anthony Kiedis, e levara John Frusciante, segundo a Rolling Stone o 13º melhor guitarrista de sempre, a abandonar a banda. Nessa altura, tal como a falta de pontaria de Liedson, também a posição de guitarrista começava a parecer amaldiçoada - Hillel Slovak, o primeiro guitarrista da banda, morreu em 1988 com uma overdose – mas Dave Navarro aceitou a missão. No entanto, o antigo membro dos Janes Addiction, nunca conseguiu entrar no ritmo funk dos californianos e o resultado pouco mais foi que sofrível. Com a principal figura da banda a lutar contra a dependência de drogas pesadas, sem guitarrista nem um disco de sucesso, muitos declararam o óbito da banda. Mas houve quem não desistisse.
Flea, baixista e co-fundador da banda, nunca perdeu o contacto com Frusciante. Empurrou-o para clínicas de reabilitação, visitou-o em hospitais, levou-o ao cirurgião plástico para recuperar os dentes que a heroína apodrecera e foi ele quem, em 1999, o conduziu até casa de Kiedis para anunciar a boa nova: o guitarrista estava recuperado e ansioso por regressar ao trabalho. Dos ensaios saiu Californication, o disco de maior sucesso da banda com mais de 13 milhões de cópias vendidas por todo o Mundo. À sexta jornada, foi ao som de assobios que as bancadas de Alvalade, enfeitadas com lenços brancos, se despediram dos jogadores que empataram com o Nacional. Entre o público, há saudades dos afinados cânticos a “grandes artistas”, a gabar a bela curva ou a enaltecer a capacidade de resolver de um ou outro avançado, mas ainda mais de ver bom futebol, com golos, vitórias e celebrações efusivas. Nas bancadas convém que ninguém se esqueça que sarar feridas profundas demora o seu tempo, mas é do “outro lado”, nos bastidores, que é preciso trabalhar para a recuperação. Será que José Eduardo Bettencourt consegue fazer de Flea? Os fãs, do Sporting e do bom futebol, ficariam gratos. Afinal, até já se viram recuperações bem mais complicadas.
Dias depois de José Mourinho ter anunciado que recebera um convite para orientar a selecção em dois jogos e de Gilberto Madaíl garantir que não tinha viajado até Madrid em “peregrinação”, Paulo Bento foi chamado à Alexandre Herculano. Sosseguem-se os críticos, afinal, não era Mourinho o escolhido. Afinal, para Gilberto Madaíl, é Paulo Bento o “homem certo” para ocupar a cadeira de onde a direcção da Federação Portuguesa de Futebol empurrou Carlos Queiroz.
Gilberto Madaíl tem o dom de funcionar numa realidade paralela. Um dom que lhe tem permitido resistir a todas as hecatombes. Foi assim quando Sá Pinto agrediu o seleccionador nacional, quando Portugal falhou o apuramento para o Mundial de 1998, foi assim quando um jogador da selecção agrediu um árbitro no Mundial da Coreia (2002) ou quando fez de observador independente ao soco com que Luiz Felipe Scolari brindou o jogador sérvio Dragutinovic.
Agora, Madaíl prepara-se para se valer do seu dom e sobreviver a mais um momento embaraçoso do futebol português. Na realidade paralela de Madaíl, não é grave ter o seleccionador envolvido em confrontos físicos com um comentador de televisão e a ofender uma equipa de controlo antidoping. Ouvir o Secretário de Estado do Desporto pedir “mais futebol e menos conversa” e acabar a ser acusado de ter orquestrado o despedimento do seleccionador, também não. Na realidade de Madaíl, não é grave ir até Madrid apelar à bondade do treinador mais caro do Mundo e regressar a casa, sem seleccionador e com o clube que paga o ordenado ao desejado a dizer que não recebeu qualquer contacto da FPF.
Para Gilberto Madaíl, Paulo Bento é o “homem certo” para tentar recuperar do disparate em que o apuramento para o Euro 2012 se transformou. Para Paulo Bento fica um aviso: A missão é espinhosa, a aritmética não permite erros e tentar conviver com a realidade paralela tem custado várias indemnizações aos cofres da FPF. A Paulo Bento, deixo um ’Boa sorte’. Vai precisar.
Here Comes Your Man, Pixies.