Um nível pode ser, como diz a Wikipédia, um “instrumento destinado a gerar um plano horizontal de referência, para calcular os desníveis entre pontos”, pode ser a linha que separa o bem do mal, mas será sempre uma referência. Queremos baixos níveis de pobreza e de criminalidade, mas queremos políticos e dirigentes de alto nível. Ontem faltou nível no Estádio da Luz.
Com o orgulho ferido pela derrota na Supertaça e pela goleada sofrida no Dragão e com meses de indisposição acumulada por nunca se terem conseguido aproximar da liderança do campeonato, ontem o objectivo dos encarnados era assumido: adiar a celebração do FC Porto. Não contava a vantagem conseguida na meia-final da Taça de Portugal, a garantia de mais uma final na Taça da Liga ou, sequer, a presença nos quartos-de-final da Liga Europa. Ontem jogava-se pelo orgulho e o Benfica falhou.
Durante os 90’ minutos enfrentaram-se as duas melhores equipas nacionais e a vitória dos novos campeões nacionais foi clara. Tão clara como a justiça de um campeonato que os portistas vencem a cinco jornadas do fim, sem derrotas e a celebrar em casa do único rival. Mas não foi em campo que o Benfica perdeu nível. É certo que Roberto voltou a servir de avançado, que Jesus voltou a descobrir um jogador que não pode ser defesa lateral (Airton) e que Cardozo voltou a ser perdulário, mas a isso, acho, chama-se futebol. A verdadeira estocada no orgulho benfiquista foi dada após o final do jogo.
Ontem, foi a falta de nível dos responsáveis benfiquistas que mais feriu o orgulho dos seus adeptos. Apagar as luzes e ligar o sistema de rega enquanto os novos campeões nacionais celebravam é de baixo nível, revela falta de desportivismo e, no limite, mau perder. Com razão, alguns dirão que a tradição de receber mal os visitantes foi iniciada nas Antas e aperfeiçoada no Dragão. Afinal, foi em casa do FC Porto que se infestaram balneários com aguardente, é no Dragão que o Benfica é anunciado como “visitante” e é na Invicta que dirigentes e adeptos do clube são recebidos em estado de sítio. Mas também é sabido que esse não é o segredo do sucesso azul-e-branco.
Na Luz, podiam tentar copiar a equipa de olheiros que descobriu Hulk perdido no Japão. Podiam copiar o método de negociação que levou Falcão a aterrar no Sá Carneiro e não na Portela. Podiam até inspirar-se na alma com que os azuis-e-brancos entraram em campo. Mas ontem os dirigentes encarnados decidiram copiar o que de pior o FC Porto tem. Voltaram a fazer descer o nível de uma guerra que só devia ser travada em campo e, garantidamente, não ganharam nada com isso. Em campo, a equipa foi simplesmente derrotada. Fora de campo, a exibição foi bem pior.
Fica o Fair Play de Van Morrison